O Partido da Imprensa Golpista começa a retaliar o senador Fernando Collor após declarações dadas por ele na CPI do Cachoeira (vídeo abaixo). A tv globo exibe hoje no Fantástico show da vida alienada, uma entrevista com a ex-esposa de Collor tentando denegrir a sua imagem. E vem mais por aí.
De Mino Carta O jornal O Globo toma
as dores da revista Veja e de seu patrão na edição de terça 8, e
determina: “Roberto Civita não é Rupert Murdoch”. Em cena, o espírito
corporativo. Manda a tradição do jornalismo pátrio, fiel do pensamento
único diante de qualquer risco de mudança.
Desde 2002, todos
empenhados em criar problemas para o governo do metalúrgico desabusado
e, de dois anos para cá, para a burguesa que lá pelas tantas pegou em
armas contra a ditadura, embora nunca as tenha usado. Os barões
midiáticos detestam-se cordialmente uns aos outros, mas a ameaça comum,
ou o simples temor de que se manifeste, os leva a se unir, automática e
compactamente.
Não há necessidade de uma convocação explícita, o
toque do alerta alcança com exclusividade os seus ouvidos interiores
enquanto ninguém mais o escuta. E entra na liça o jornal da família
Marinho para acusar quem acusa o parceiro de jornada, o qual, comovido,
transforma o texto global na sua própria peça de defesa, desfraldada no
site de Veja. A CPI do Cachoeira em potência encerra perigos em primeiro
lugar para a Editora Abril. Nem por isso os demais da mídia nativa
estão a salvo, o mal de um pode ser de todos.
O autor do
editorial exibe a tranquilidade de Pitágoras na hora de resolver seu
teorema, na certeza de ter demolido com sua pena (imortal?) os
argumentos de CartaCapital. Arrisca-se, porém, igual a Rui Falcão, de
quem se apressa a citar a frase sobre a CPI, vista como a oportunidade
“de desmascarar o mensalão”. Com notável candura evoca o Caso Watergate
para justificar o chefe da sucursal de Veja em Brasília nas suas
notórias andanças com o chefão goiano. Ambos desastrados, o
editorialista e o líder petista.
Abalo-me a observar que a
semanal abriliana em nada se parece com o Washington Post, bem como
Roberto Civita com Katharine Graham, dona, à época de Watergate, do
extraordinário diário da capital americana. Poupo os leitores e os meus
pacientes botões de comparações entre a mídia dos Estados Unidos e a do
Brasil, mas não deixo de acentuar a abissal diferença entre o diretor de
Veja e Ben Bradlee, diretor do Washington Post, e entre Policarpo Jr. e
Bob Woodward e Carl Bernstein, autores da série que obrigou Richard
Nixon a se demitir antes de sofrer o inevitável impeachment. E ainda
entre o Garganta Profunda, agente graduado do FBI, e um bicheiro
mafioso.
Recomenda-se um mínimo de apego à verdade factual e ao
espírito crítico, embora seja do conhecimento até do mundo mineral a
clamorosa ignorância das redações nativas. Vale dizer, de todo modo,
que, para não perder o vezo, o editorialista global esquece, entre
outras façanhas de Veja, aquele épico momento em que a revista publica o
dossiê fornecido por Daniel Dantas sobre as contas no exterior de
alguns figurões da República, a começar pelo presidente Lula.
Anos de chumbo. O grande e conveniente amigo chamava-se Armando Falcão
Concentro-me em outras miopias de O Globo. Sem citar CartaCapital, o
jornal a inclui entre “os veículos de imprensa chapa-branca, que atuam
como linha auxiliar dos setores radicais do PT”. Anotação marginal: os
radicais do PT são hoje em dia tão comuns quanto os brontossauros.
Talvez fossem anacrônicos nos seus tempos de plena exposição, hoje em
dia mudaram de ideia ou sumiram de vez. Há tempo CartaCapital lamenta
que o PT tenha assumido no poder as feições dos demais partidos.
Vamos, de todo modo, à vezeira acusação de que somos chapa-branca.
Apenas e tão somente porque entendemos que os governos do presidente
Lula e da presidenta Dilma são muito mais confiáveis do que seus
antecessores? Chapa-branca é a mídia nativa e O Globo cumpre a tarefa
com diligência vetusta e comovedora, destaque na opção pelos interesses
dos herdeiros da casa-grande, empenhados em manter de pé a senzala até o
derradeiro instante possível.
Não é por acaso que 64% dos
brasileiros não dispõem de saneamento básico e que 50 mil morrem
assassinados anualmente. Ou que os nossos índices de ensino e saúde
públicos são dignos dos fundões da África, a par da magnífica colocação
do País entre aqueles que pior distribuem a renda. Em compensação, a
minoria privilegiada imita a vida dos emires árabes.
Chapa-branca a favor de quem, impávidos senhores da prepotência, da
velhacaria, da arrogância, da incompetência, da hipocrisia? Arauto da
ditadura, Roberto Marinho fermentou seu poder à sombra dela e fez das
Organizações Globo um monstro que assola o Brazil-zil-zil. Seu jornal
apoiou o golpe, o golpe dentro do golpe, a repressão feroz. Illo
tempore, seu grande amigo chamava-se Armando Falcão.
Opositor
ferrenho das Diretas Já, rejubilado pelo fracasso da Emenda Dante de
Oliveira, seu grande amigo passou a atender pelo nome de Antonio Carlos
Magalhães. O doutor Roberto em pessoa manipulou o célebre debate Lula
versus Collor, para opor-se a este dois anos depois, cobrador, o
presidente caçador de marajás, de pedágios exorbitantes, quando já não
havia como segurá-lo depois das claras, circunstanciadas denúncias do
motorista Eriberto, publicadas pela revista IstoÉ, dirigida então pelo
acima assinado.
Pronta às loas mais desbragadas a Fernando
Henrique presidente, com o aval de ACM, a Globo sustentou a reeleição
comprada e a privataria tucana, e resistiu à própria falência do País no
começo de 1999, após ter apoiado a candidatura de FHC na qualidade de
defensor da estabilidade. Não lhe faltaram compensações. Endividada até o
chapéu, teve o presente de 800 milhões de reais do BNDES do senhor
Reichstul. Haja chapa-branca.
Impossível a comparação entre a
chamada “grande imprensa” (eu a enxergo mínima) e o que chama de “linha
auxiliar de setores radicais do PT”, conforme definem as primeiras
linhas do editorial de O Globo. A questão, de verdade, é muito simples:
há jornalismo e jornalismo. Ao contrário destes “grandes”, nós
entendemos que a liberdade sozinha, sem o acompanhamento pontual da
igualdade, é apenas a do mais forte, ou, se quiserem, do mais rico. É a
liberdade do rei leão no coração da selva, seguido a conveniente
distância por sua corte de ienas.
Acreditamos também que
entregue à propaganda da linha auxiliar da casa-grande, o Brasil não
chegaria a ser o País que ele mesmo e sua nação merecem. Nunca me canso
de repetir Raymundo Faoro: “Eles querem um País de 20 milhões de
habitantes e uma democracia sem povo”. No mais, sobra a evidência:
Roberto Civita é o Murdoch que este país pode se permitir, além de
inventor da lâmpada Skuromatic a convocar as trevas ao meio-dia. Temos
de convir que, na mídia brasileira, abundam os usuários deste milagroso
objeto.