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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

RIO DE SANGUE


O Coletivo Advogados para a Democracia e Direitos Humanos manifesta profundo repúdio à ação conduzida pela polícia fluminense e pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro no último dia 28 de outubro, chamada "Operação Contenção" ocorrida no complexo da Penha que deixou pelo menos 119 mortos (sendo 115 civis e 4 policiais). Trata-se de mais uma ação marcada por falta de inteligência tática, ausência de protocolo adequado e violação grave dos direitos humanos e da dignidade da pessoa humana.

Como nas ultimas três décadas, a operação resultou em mais uma tragédia e dessa vez a maior da história da cidade. Inúmeros mortos inocentes e policiais, evidenciando erro de comando e irresponsabilidade institucional. Segurança pública não se faz com improviso nem com massacre mas com planejamento, inteligência, estratégia e respeito à vida tendo como objetivo causar o menor número possível de danos colaterais, tudo o que não ocorreu na última terça-feira. 

Exigimos investigação independente, responsabilização dos envolvidos e a revisão imediata das políticas de segurança baseadas na força bruta, na impunidade e na militarização.

Pela vida! Pela democracia! Pela justiça!


COLETIVO ADVOGADOS PARA A DEMOCRACIA E DIREITOS HUMANOS  COADE.

São Paulo, 30 de novembro de 2025.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A DEMOCRACIA CRONICAMENTE INVIÁVEL

Um leitor deste blog me indicou um vídeo que está bombando na internet. Ao assisti-lo me deparei com o registro de uma discussão ocorrida em uma calçada do Leblon, no Rio de janeiro, entre manifestantes e moradores do bairro. 

São imagens importantes por demonstrarem percepções livres e espontâneas do cotidiano daqueles cidadãos fazendo com que possamos entender um pouco mais da sociedade brasileira, especialmente, a classe média e suas contradições.

É uma mistura de senso comum, preconceito, discriminação, alienação, hipocrisia, consciência cidadã, preocupação social, democracia, reacionários e progressistas.

O que se apresenta indignado desde o início é um tiozão afirmando ser morador do bairro e que a manifestação é de direita, realizada por fascistas. Ele defende melhorias no país realizadas pelo governo federal. Além disso, questiona um dos manifestantes fantasiado de Batman, querendo saber do que ele era herói vestido com a roupa de um dos símbolos do capitalismo americano. INTERESSANTE! Pouco depois, o mesmo tiozão faz questão de afirmar que ganha muito bem e segue inconformado protestando contra o protesto. INCRÍVEL!

O Batman, por sua vez, discorda de que seja tal símbolo e reivindica o direito de estar ali lutando por um país melhor e defendendo a democracia. MACACOS ME MORDAM!

Com a discussão, pessoas vão se aglomerando para saber o motivo da discórdia e passam a participar dela. Uma tiazinha afirma ao Batman que o carnaval ainda está longe, outra que parece ter seus poucos neurônios com lesões irreversíveis de tanto ler a Veja e todos os membros do P.I.G. e portando uma câmera fotográfica, discorda do tiozão afirmando que os manifestantes não são de direita e que ela é. Em seguida, ela afirma que nunca agiria como eles e que aquilo faz parte da tentativa de uma ocupação comunista e totalitarista no país. ANTES FOSSE!

Junto de toda a bagunça, há um repórter francês e um câmera registrando tudo e muito interessado nos rolezinhos mas mantendo o estilo europeu tentando entender a convivência no zoológico.

Enfim, é um registro que aponta para duas alternativas: a de que somos um país cronicamente inviável ou a de que temos uma democracia muito jovem. Pensando bem, sociologicamente, as duas percepções são válidas e estão interligadas.

Confira!


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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

TODO APOIO AOS PROFESSORES

  Manifestação de professores em greve na Prefeitura do Rio, nesta sexta-feira
 Do COADE

O Coletivo Advogados para a Democracia manifesta solidariedade e apoio às manifestações realizadas pelos Educadores cariocas que estão em greve a mais de 50 dias.

É necessário que os profissionais da Educação tenham o mínimo de condições para poder exercer o seu ofício. Para tanto é preciso que o poder público entenda que é fundamental o diálogo para que se encontre um consenso.

É inaceitável que os governantes continuem ignorando a necessidade de ampliar os investimentos na educação bem como o cumprimento da lei do piso, dentre outras questões que garantem dignidade aos Professores.

Também repudiamos a covarde e violenta Polícia Militar que age sob o comando do governador como se estivesse em um Estado de exceção utilizando cassetetes, gás pimenta, bombas de efeito moral e bombas de gás contra cidadãos que simplesmente estão reivindicando os seus direitos.

A luta dos Educadores do Rio de Janeiro é a luta da sociedade brasileira que precisa ter na educação uma referência de reflexão, conhecimento e cidadania possibilitando modificações profundas e necessárias ao nosso país.


O COADE apoia incondicionalmente a legítima reivindicação dos profissionais da Educação.

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quarta-feira, 19 de junho de 2013

TARIFA REVOGADA!

Do COADE

Na tarde de hoje, São Paulo e Rio de Janeiro revogaram os aumentos das passagens do transporte público.

Após seis atos de protestos por todo o país, a mobilização popular surtiu efeito e deixou evidenciado que é possível participar das decisões daqueles que nos representam no poder institucional com articulação cidadã.
 
Não há razão para esperar pela boa vontade de nossos representantes. É preciso mostrar a eles que os cidadãos possuem capacidade e força para lutar por seus direitos.

A mobilização popular colocou o status quo contra a parede e o forçou a recuar. A vitória de hoje se deve aos milhares de brasileiros que se propuseram a ir às ruas enfrentando a violência policial, a ideologia vigente com os meios de comunicação de massa e os infiltrados no Movimento para desqualificá-lo. Todos sentem o gosto amargo da derrota.

Entendemos que é urgente a revisão do Estado repressor e do sistema desumano em que a sociedade brasileira se encontra.

O diálogo precisa ser, efetivamente, socializado em busca de articulações cabíveis para que surja uma pauta social de mudanças.

Comemoramos a vitória mas sem perder de vista o longo caminho que devemos percorrer na busca de uma nação progressista, focada nos interesses dos cidadãos e no respeito ao ser humano.

Seguimos na luta!

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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

HÉLIO LUZ: “O ESTADO CRIOU ESTES CARAS”


A entrevista que publico abaixo, realizada com Hélio Luz ex-chefe da Polícia do Rio de Janeiro (de 1995 a 1997) e publicada pelo Zero Hora ratifica a reflexão deste blogueiro no texto "NÓS, OS DERROTADOS". O problema é muito maior do que simplesmente retomar áreas da cidade que estão sob o comando do tráfico. Confira:

DO ZERO HORA

Hélio Luz, radicado em Porto Alegre, sua cidade natal e onde residem familiares, o ex-chefe da Polícia do Rio de Janeiro (de 1995 a 1997, durante o governo de Marcello Alencar) acompanha com interesse a situação lá. Delegado aposentado, Luz dirigia a Polícia Civil do Rio quando agentes prenderam o traficante Marcio Nepomucemo, o Marcinho VP, apontado como um dos líderes do tráfico no Complexo do Alemão – para onde fugiram bandidos armados expulsos da Vila Cruzeiro, na última quinta-feira.
A entrevista para o Zero Hora é de Carlos Etchichury; foi publicada em 28 de novembro de 2010.
A imagem de jovens esfarrapados, armados com fuzis, escopetas, metralhadoras e pistolas, não surpreende Hélio Luz.
– O Estado nunca teve uma política de segurança de médio ou longo prazo. O Estado sempre atuou com uma política de segurança imediata – diz.
Eis a entrevista.

Zero Hora — Como funciona o comando do tráfico no Complexo do Alemão?
Hélio Luz – Ele é diferente das demais favelas. É preciso voltar no tempo. Um dos fundadores do Comando Vermelho (CV), Rogério Lemgruber, o Bagulhão, foi preso na Ilha Grande, na época da ditadura, e conviveu com presos políticos.

Zero Hora — Qual a influência da convivência com os presos políticos?
Hélio Luz — Quando ele saiu da Ilha Grande, começou a se organizar e se juntou com outros líderes. Um deles era o Orlando Jogador, que era do Complexo do Alemão. O Comando Vermelho começou a tomar o espaço de outras favelas, mudando a relação com a comunidade. O pessoal que assumia não tinha respeito com a população, porque era de outra área. O Orlando Jogador cresceu naquela área até ser morto, em 1994. Em seu lugar, assumiu o Marcinho Nepomucemo, o Marcinho VP (Vila da Penha), que era o braço direito do Orlando. Ele era da comunidade, e isso fez toda diferença (mesmo preso, Marcinho VP continua dominando o Complexo do Alemão).

Zero Hora — As imagens da Rede Globo o surpreendem?
Hélio Luz – É uma situação antiga. Esta formação não foi feita em dois anos, cinco anos. Ela foi feita ao longo de 30 anos. Eles conseguem se sustentar no Complexo do Alemão, diferentemente de outras áreas, porque são de lá. Eles conhecem bem o terreno e a comunidade. Mas eles não constituem exército, milícia, coisa nenhuma. É um bando de garotos que não têm nada na cabeça. O fato de eles fugirem juntos supõe algum nível de organização de enfrentamento. Mas não têm.

Zero Hora — Qual foi o momento em que o Estado perdeu o controle da situação?
Hélio Luz – O Estado nunca teve uma política de segurança de longo prazo. Nem de médio prazo. O Estado sempre operou com política de segurança de resultados. Há duas causas para o que nós estamos vendo. Uma, mais remota, e mais grave, que é a questão social. Outra, mais próxima, é restrita à área de segurança.

Zero Hora — A impressão é de que se trata de um grupo organizado.
Hélio Luz -- Quando ocorre esta ação espetacular, você pensa que o Estado venceu e que nós estamos derrotando um inimigo. Mas eles não são inimigos do Estado, eles são integrantes do Estado, mas foram marginalizados. O Estado criou estes caras. É produto direto do que nós fizemos. Num nível mais direto da segurança é resultado da corrupção das polícias do Rio.

Zero Hora — A polícia do Rio é corrupta, como mostrou os filmes Tropa de Elite e Tropa de Elite II?
Hélio Luz -- É muito mais. Se fosse como o filme, seria ótimo. O grande problema é quantas vezes estes garotos foram presos e soltos? Foram para delegacia e liberados? Nem fichados são. Por quê? Porque tem acerto. Eles existem pela permissividade da polícia. Além disso, há questões de fundo. Eles prendem estes 200 que nós vimos fugindo, mas vão colocar aonde? E os outros, sei lá, 20 mil que têm no complexo com a idade deles? Tem política para eles? Vai ser proporcionada uma vida decente para eles? Como será feita a manutenção da área ocupada?

Zero Hora — Qual a opinião do senhor sobre as UPPs?
Hélio Luz — É interessante. Eu não entendo por que colocam recrutas para montar UPPs. Eles dizem que, na média, são uns 200 recrutas com um oficial. Nas 14 UPPs,  dá algo em torno de 2,8 mil recrutas, 3 mil recrutas. Então, 3 mil recrutas estão resolvendo a situação da criminalidade no Rio? Tem um contingente de 40 mil policiais, mais 10 mil na Polícia Civil, que não resolveram o problema da criminalidade. É isso que estão dizendo? Se é isso, estão confirmando que o problema é corrupção.

Zero Hora — Qual a solução para o Rio?
Hélio Luz – É desconcentração de renda. Quem tem de dar palpite sobre a segurança no Rio é aquele professor de Pernambuco, o Mozart Neves (ex-reitor da Universidade Federal de Pernambuco, integrante do movimento Educação para Todos). O negócio é educação. Não tem saída.

Zero Hora — O senhor já participou de grandes operações no Complexo do Alemão?
Hélio Luz -- Já participei de operações, mas não de grandes operações. Não precisa. Claro que agora, com essa situação, são necessárias mobilizações. Mas os principais vagabundos do Rio foram presos sem dar um tiro. Tu prende o cara no asfalto.

Zero Hora Esta é a situação mais crítica do Rio?
Hélio Luz --  Em 1994, havia 140 pessoas sequestradas no Rio. O problema era muito sério. Os empresários, na época, queriam sair do Rio. Eles faziam seguro com empresas americanas para ter segurança na cidade. Foi um período de caos. Acabou o sequestro no Rio. Por que acabou? Porque a polícia antissequestro parou de sequestrar.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

NÓS, OS DERROTADOS




Nos últimos dias a velha mídia nacional tem praticado a costumeira pirotecnia acerca dos conflitos existentes entre policiais, exército e o tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Com os mesmos argumentos maniqueístas em manchetes e textos, é possível verificar a venda de uma suposta luta entre o bem (policiais e exército) e o mal (tráfico de drogas).

Vejo pela TV a cobertura de mais esse show midiático e ouço, como num jogo de futebol, comentaristas fazendo suas "apostas" sobre o que irá acontecer no momento seguinte até que um deles convoca a população para comemorar o feito da conquista do território inimigo, ou seja, mais uma vez a questão da violência é tratada de forma absolutamente irresponsável e simplista. Comemorar o que, servidor do PIG!? Acorde e veja a que ponto chegamos. Uma verdadeira guerra entre cidadãos brasileiros se torna entretenimento e o vencedor herói!? Esse herói está a serviço de quem? As respostas certamente estão no alto índice de audiência que o fato é capaz de captar e, a partir daí, engordar os cofres da emissora (concessão pública).

A questão que merece reflexão é a de que vivemos numa sociedade pautada por uma entidade maior com força e vontade próprias: o "deus mercado" (sim, esse deus existe!). Junto a ele o sistema capitalista que tem em suas vísceras, a tão "combatida" violência.

Assim como a morte para todo ser vivo, tal sistema tem como inexorável o objetivo do consumo ilimitado, de tornar a ganância algo aceitável bem como a eterna busca do privilégio e da diferenciação. Nós, seres humanos, fomos adestrados a aceitar o convívio em sociedade baseado em valores materiais e estéticos. Passamos diariamente por um processo de coisificação sendo transportados do mundo do ser para o mundo do ter.

Diante disso, não há nenhum espanto em verificar o crescimento do narcotráfico que passou a tomar o lugar do Estado nos locais onde este não quer chegar. O Estado sob a ética capitalista só reza na bíblia da barbárie! Nos acostumamos com a perversão.Ele assume o papel de conivente com o sistema de poucos e reafirma ideologicamente que a realização nunca é plena e há sempre o que ser conquistado através de muita competição e com isso, obviamente, o fomento do mercado. Não há a percepção de coexistência, apenas o individualismo. Não existe a garantia da dignidade a todos por simples desrespeito ao cidadão gerando marginalidade e miséria. Somos o resultado da mais-valia sofisticada com a máscara da indústria cultural.

Daí surge a verificação inequívoca de que se trata de uma sociedade caótica, sem perspectiva de futuro que empurra novas gerações, literalmente, ao fogo cruzado. O futuro é apenas o da exploração do homem pelo homem.

Para manter seus interesses o PIG e o Estado já comemoram a vitória do seu "bem" que não decide a guerra (ela não pode parar). O sistema capitalista e seus tentáculos não querem, efetivamente, acabar com o tráfico. Ao contrário. Ele continua pronto para reestabelecer novas lideranças que substituam as que foram derrubadas. O importante é que tudo funcione no seu devido lugar sem que se desrespeite fronteiras.

Enquanto o Estado que temos não for revisto, problemas como o do narcotráfico e da violência não terão solução restando aos brasileiros o fingimento de que vivemos numa sociedade saudável e democrática. O que se viu no último final de semana na capital fluminense foi a vitória da hipocrisia.

Não existem vencedores apenas derrotados.

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